quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Ponte entre povos
(por Ana Miranda - Correio Brasiliense, 17/11/2005 (
Fonte)
“Era, simplesmente, a música de nossos índios. Bela, arrebatadora, ela arranca de uma escuridão histórica sons que compõem nossa alma mais primitiva”
Eu, como quase todo mundo, achava que a música indígena era monótona, que não ia muito além de rufares repetitivos ao bater do pé no chão. Até que ouvi o primeiro disco de minha irmã, Marlui Miranda, sobre o tema: Ihu, todos os sons. Havia ali uma fantástica riqueza sonora, rítmica, de significados e representações. As músicas lembravam ora John Cage, ora um blues, ora uma sinfonia de Villa-Lobo s ou Strawinski na floresta. Ora um canto de fadas, ora ninfas crianças a banhar-se no rio, vozes de espíritos, o vôo de um pássaro mítico. Ou, então, cerimônias assustadoras, por desconhecidas. Mas era, simplesmente, a música de nossos índios. Bela, arrebatadora, ela arranca de uma escuridão histórica sons que compõem nossa alma mais primitiva.
Desde então, a cada trabalho que minha irmã realiza me surpreendo mais. A fresta aberta por Mário de Andrade é, com o trabalho de Marlui, uma demolição no muro de esquecimento levantado pelo trabalho colonial de extermínio da cultura e dos povos índios.
Marlui costuma dizer: “O índio é indestrutível. Ele jamais deixa de ser índio”. E ele jamais deixará de existir como nossa origem. Por isso, devemos compreender e amar nossos índios, iluminar seu valor. Marlui criou-se em Brasília e hoje mora numa floresta, perto de São Paulo. Tantas vezes nos despedimos e, com um aperto no coração, eu a vi partir, levando sua imensa mochil a e equipamentos, entusiasmada, rumo a alguma aldeia... Ela tomava um avião, depois um avião menor, depois um barco, um barco menor, uma canoa, viajava por travessias perigosas, corredeiras e finalmente caminhava pelas matas, subindo e descendo barrancos, carregando nas costas aquilo de que precisava. Passava dias num lugar que, dizia ela, era um misto de paraíso e inferno. Convivia com índios. Voltava com os pés e mãos desenhados com riscos geométricos. Parecia uma índia, os cabelos vermelhos trançados. Com sua belíssima voz, aprendera a cantar as músicas daquela tribo, a tocar seus instrumentos, a entender seus significados, modos, seus sentimentos, suas razões. Marlui tem, hoje, depois de décadas de contatos com pakaa-nova, jabuti, suruí, panará, tuyuka, entre outras tribos, um acervo precioso. Se não fosse sua iniciativa, muitas músicas estariam perdidas.
Ela vem realizando arduamente seu trabalho, que é uma recriação dessas músicas, mais reconhecido e valorizado no exterior do que no Brasil. Marlui vive viajando para fora, vai a universidades, salas de concerto, fundações culturais... Fez discos, livros com partituras e letras, explicações, fotos, desenhos de índios, compôs uma fantástica missa indígena, que foi apresentada na catedral da Sé, de São Paulo, rezada por dom Paulo Evaristo Arns, em tupi, com a presença de índios em lágrimas. E vai a escolas, mostrando a jovens e crianças esse lado nosso. Seu último trabalho, Ponte entre povos, nasceu de um convite de Janete e João Capiberibe, então governador do Amapá, para que aproximasse, por meio de uma experiência sonora, índios e moradores de Macapá. Numa escola de música erudita, encontraram-se índios e não-índios. Povos do Tumucumaque, Wayana e Apalai e Palikur, Tiriyó, Katxuyana ensinaram suas músicas aos alunos da escola. Ao longo de dois anos, os estudantes aprenderam a tocar instrumentos indígenas, um violinista tocava usando bastante breu na ponta da cravelha, para imitar o som do casco do jabuti, outro tentava aproximar suas cordas do timbre dos turés palikur, enquanto os índios ouviam, pela primeira vez, uma orquestra e viam seus instrumentos. Essa Ponte foi apresentada aos moradores de Macapá num concerto noturno à beira do Rio Amazonas.
O mesmo concerto foi mostrado recentemente em Brasília e, não por mera coincidência, no Teatro Claudio Santoro, Sala Villa-Lobos. Esses dois grandes músicos, com certeza, estiveram presentes em espírito, ao lado de Mário de Andrade e dos brasilienses, com toda a sua sensibilidade exposta a nossa música indígena brasileira, tão única e universal.

8 comentários:

Márcia(clarinha) disse...

oi Angela
que prazer entrar em seu cantinho tão especial,limpo,sonoramente fantástico e brasileiro.
que exemplo Marlui Miranda dá para preservação de cultura e amor aos povos.
belo esse texto aprendi muito com ele..
voltarei para saber mais e escutar esse canto que me eleva a natureza.
obrigada por sua visita,as portas não se fecham,volte tá?
lindo dia!!
beijosssssssssssss

Jôka P. disse...

A Marcia Clarinha é minha amiga !
Adoro quando as amigas se encontram !
Bacanérrimo !
:)

Lili Cheveux de Feu disse...

Que lindo este pássaro voando... lindo...

Palpiteira disse...

Oi, Ursa. Tá um calor hoje, hein? Afe!
Beijo. BOa quarta.

Daia disse...

Mandei o SOS dos índios pataxós por e-mail para toda a minha lista, com os links. Achei que assim poderia atingir mais pessoas do que colocar no blog. Espero ter feito a coisa certa!

Saramar disse...

Angela Ursa, boa noite
fiquei emocionada com o texto da Ana Miranda. E pensar que tantas instituições e ONG's existem trabalhando com os índios, mas foi preciso que uma única mulher, uma guerreira, se enfiasse mato a dentro para recolher, sabe-se lá como, essas mem´rias musicias maravilhosas.

Obrigada, pela milésima vez, por mais um belo post.

Beijos

Saramar disse...

Angela Ursa, boa noite
fiquei emocionada com o texto da Ana Miranda. E pensar que tantas instituições e ONG's existem trabalhando com os índios, mas foi preciso que uma única mulher, uma guerreira, se enfiasse mato a dentro para recolher, sabe-se lá como, essas mem´rias musicias maravilhosas.

Obrigada, pela milésima vez, por mais um belo post.

Beijos

Angela Ursa disse...

Márcia (Clarinha), fiquei feliz com a sua visita à floresta! Seja sempre bem-vinda! Beijo da Ursa :))

Jôka, você tem um lindo jardim de amigos! ;)) Beijos!!

Lilli, essa arara é uma das mascotes da floresta. Beijo da Ursa!

Palpiteira, aqui também a temperatura está quentíssima! Que vontade de mergulhar no mar em Copacabana ;)) Beijos!

Daia, muito obrigada pela divulgação e apoio aos irmãos pataxós. Beijos!

Saramar, é muito bonita mesma a homenagem que a Ana Miranda faz à irmã Marlui que tem um trabalho lindíssimo junto aos irmãos índios. Beijos!