segunda-feira, 21 de novembro de 2005


Seu Gago é conhecido como o homem que foi atacado pelo biatatá.

Lenda viva
(
Ciro Brigham - Repórter, Correio da Bahia, 20.11.2005. Informações enviadas por Ras Adauto para a Lista de Literatura Indígena)
No povoado de São Braz, que faz parte do município de Santo Amaro, o ex-pescador Vivaldo Bispo Oliveira, 92 anos, conhecido como Seo Gago - apelido que desmente a notável habilidade na oratória - é famoso pelo prodígio de não ter sucumbido à luz ameaçadora que surgiu das profundezas da baía. Há 60 anos, passaria a ser conhecido como o homem que foi atacado pela biatatá.
Sentado num rústico banquinho de madeira em frente à sua biboca, ele conta que foi numa noite de sábado, quando retornava de canoa da `vila de São Francisco do Conde´ (onde diariamente entregava o jogo do bicho) para São Braz. Perto de chegar, viu uma luz que fugia da água e esculpia os ares, um feixe que ia e vinha, como que uma rede de pesca incandescente. Recordando-se de, na ida, topar com um amigo que mariscava, aproximou-se clamando por fogo para acender um cigarro, e xingando, na brincadeira, o companheiro. "Eu não devia ter xingado", lembra.
Era uma luz de vida própria, que na fúria de ser provocada, ficou enorme e ganhou a companhia de outro feixe mais adiante. As duas aparições passaram a travar um embate por sobre o amedrontado canoeiro. "Uma quentura medonha, que eu tava vendo a hora da carne largar do corpo"... Cercado o barco, não havia mais o que fazer. Gago abaixou-se, colocou a cabeça entre as pernas e só voltou a si depois de nove dias fechado numa casa, deitado sobre folhas de mandioca "pra não morrer de assombro".
A imaginação criadora deste estado de espírito é coletiva. O amigo Antônio Argolo reforça que já viu no Moacho, de longe, a `coisa´ no mato. O povoado inteiro reforça. O povoado dos descendentes daqueles que acudiram o pescador em apuros. A biatatá de São Braz ainda hoje aparece, na força que o popular confere às manifestações da natureza, desconhecidas, incompreensíveis. Desde que seja à noite. Ela tem medo da luz elétrica, e do fósforo, assassinos do mistério.

7 comentários:

nanbiquara disse...

Concordo plenamente, luz elétrica e fósforo tiram o encantamento.
E o biatatá existe sim, desde criança ouvi "causos" sobre ele, ora!
Beijos, :).

Angela Ursa disse...

Amiga nanbiquara, eu lembrei de você quando li sobre o Seu Gago. Você que é baiana, conhece muito mais sobre essas lendas. Então, se você diz que o biatatá existe, eu acredito :)) Beijos!

Margaret Dal-Ri disse...

Nunca havia ouvido falar no biatatá, mas adoro lendas.Através delas lidamos melhor com o incomprensível e nossos medos.

Angela Ursa disse...

Margaret, o biatatá só aparece à noite ;)) Também gosto muito das lendas. Beijos!

luciane disse...

Angela, essa lenda no Rio Grande do Sul chama-se "boitatá". Também é uma luz que cega as pessoas. A única diferença é que aparece no campo, no pampa, e não no litoral.
;c)

Angela Ursa disse...

Olá, Luciane! É verdade, o termo boitatá é mais conhecido. Cada cultura faz uma adaptação da lenda :)) Beijo da Ursa

Anônimo disse...

Eu vi o biatatá por duas vezes, na beira da praia na ilha da itaparica, nao é lenda nao.