domingo, 27 de novembro de 2005


Viagem com o poeta das águas
(Fonte: site de O Globo Repórter)
Da janela do avião, ele contempla a inspiração de sua poesia e de quase toda sua obra. Mas fica triste quando vê a devastação ameaçando o paraíso. Barreirinha é a terra onde nasceu o poeta mais conhecido do Amazonas, Thiago de Mello. Ele apresenta seu refúgio preferido. O único caminho é pelo Rio Andirá, que transborda beleza e boas lembranças.
"Nas águas do Rio Andirá, minha mãe me deu o primeiro banho. Esse é o rio dos índios maués, que foram os descobridores do guaraná e o cultivam até hoje. Esse é o rio do meu coração, que só não é mar porque não quer", diz o poeta.
Essas águas batizaram vários poemas, versos de amor por uma região. Já dá para avistar a ponta da Gaivota, o endereço do destino. O barco vai se aproximando e ele começa a estranhar: “Por que estão tão distantes da margem direita?”. É que o rio ficou muito raso. O jeito é embarcar na canoa.
Na última seca na Amazônia, no ano passado, o poeta estava no Rio Andirá, em uma de suas casas, trabalhando. O desembarque não era tão distante. A canoa encostava na areia da praia. Ele diz que nunca pôs os pés na lama para chegar em casa. "Atravessei temporadas de muita seca, mas nunca como essa. Nunca houve lama", diz Thiago de Mello.
Esta é a primeira vez que ele vê seu refúgio no campo tão longe do rio. A casa foi construída há 25 anos. Projeto do arquiteto Lúcio Costa. E nesse lugar, para lá de agradável, Thiago sente falta de um companheiro que nunca deixou de circular na varanda.
"Me dei conta neste instante: a essa hora, em tempo de seca, venta o dia todo. É a primeira vez que deixa de haver vento aqui", diz ele.
Praias largas, longas, irreconhecíveis. Sob o sol forte, o calor úmido é quase insuportável. "A atmosfera está com febre. Eu aprendi no ginásio que toda ação produz uma reação igual, em sentido contrário. Nós, habitantes desse lugar tão lindo chamado Terra, queremos sair dele e começamos a agredir a atmosfera, que começou a responder com chuvas ácidas, responder à agressão dos gases que saem pelas chaminés das indústrias, causando o efeito estufa", avalia Thiago de Mello.
A voz do poeta se junta a de milhões de brasileiros que querem salvar uma das maiores florestas do mundo. "A floresta tem a vocação da dádiva, gosta de se entregar, de ser bondosa para com seus filhos. Mas gosta de ser bem tratada e respeitada. Ela gosta de ser usada, mas não de ser abusada", ressalta ele.
Existem várias soluções. “Reflorestar sistemas agroflorestais de alta produtividade, Teríamos uma forma de dar emprego e recuperar as áreas sem precisar avançar na destruição. A usura é que comanda essa destruição”, diz o professor Osório Fonseca.
Seria esta seca tão prolongada um sinal de alerta? Esse precioso patrimônio ecológico não pode deixar de ser o maior depósito de água doce da Terra – para o bem dos brasileiros e de toda a Humanidade.

3 comentários:

Matilda Penna disse...

Adoro os poemas dele.
Beijos, :).

luciane disse...

Angela, antes de eu sair do Brasil comprei umas revista de arquitetura para poder mostrar aqui para amigos. Uma das casas que aparecem em uma revista Claudia que comprei é justamente essa do Thiago de Melo que você menciona no post. É linda de morrer, simples e integrada à paisagem amazonense.
Sobre a seca e o desmatamento, discuto seguido com conhecidos sobre isso. Não sei muito sobre esse tema, mas acho que a solução pra o desmatamento é dar outra opção de renda para o pessoal que mora na Amazônia.
Beijo pra ti.

Angela Ursa disse...

nanbiquara, o Thiago de Melo tem uma linda fonte de inspiração, não? Beijos!

Luciane, será que tem foto da casa dele em algum site da internet? Eu gostaria muito de ver. Depois, vou procurar. Beijos!