domingo, 29 de janeiro de 2006

Rio Amazonas
O Sono das Águas
(Guimarães Rosa - Fonte)

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono

7 comentários:

Matilda Penna disse...

Lindo esse poema, muito lindo!
Beijos, :).

Anônimo disse...

Belíssimo. Guimarães, adormeceu e com ele o Nordeste de alma insone. Com o poeta, ele disse, tem-se sonho de meste, de repente aprende.

Angela Ursa disse...

O grande mestre da literaturaGuimarães Rosa nos presenteou
com textos maravilhosos. Beijos da Ursa :))

Alba Regina disse...

que silêncio...que coisa mais linda: porque a água dos olhos nunca tem sono.
obrigada querida. beijo.

Angela Ursa disse...

Albinha, as imagens poéticas dele são muito lindas mesmo. Beijos! :))

Lia Noronha disse...

Ursa: poesia e Natureza...interagem harmonicamente sempre...amei.
Bjus e mais bjus.

Margaret Dal-Ri disse...

Verdade.A água dos olhos nunca tem sono.Fazem de conta que estão dormindo e qualquer emoção as desperta.As vezes correm pelo rosto calmas como a água deste rio.