sexta-feira, 21 de abril de 2006



Maria das Dores de Oliveira Pankararu

Título de doutor é concedido pela primeira vez a indígena
(Matéria por: Antônio Gois, Folha de SP, 17/04/06)

A pernambucana Maria das Dores Pankararu defenderá tese de lingüística na quarta-feira, em Alagoas
Antônio Gois escreve de Maceió para a “Folha de SP”:Quarta-feira, 19 de abril, é o dia de uma índia. É também a data em que se celebra o Dia do Índio, mas não será por isso que Maria das Dores de Oliveira Pankararu, 42, será o centro das atenções na Universidade Federal de Alagoas.Na quarta, ela defenderá sua tese de doutorado em lingüística. Pode parecer pouco, mas não é. A Funai (Fundação Nacional do Índio) não tem registro de outro índio que tenha chegado ao mais alto grau acadêmico do país. Ela conta que não vê a hora de visitar de novo sua aldeia, desta vez com um título de doutora, para comemorar com os pankararu da mesma maneira que fez quando concluiu seu mestrado. Eles, que vivem no município de Tacaratu (no sertão pernambucano), porém, não serão os únicos a terem motivos para comemoração.Durante seu doutorado, Maria pesquisou a língua indígena ofayé. Ela hoje é falada por 11 pessoas da comunidade ofayé, de Brasilândia (MS), e está em risco de extinção. Seu trabalho, em parceria com a professora ofayé Marilda de Souza, foi fazer uma cartilha para ensinar as crianças da comunidade o idioma e criar uma correlação entre a língua oral e a escrita para facilitar o aprendizado.Chegar ao topo da carreira acadêmica não foi simples, mas ela encarou como mais um passo. Os primeiros, e mais difíceis, foram dados ainda criança, quando andava a pé por uma hora e meia por morros e trilhas até chegar à escola mais próxima de sua aldeia, no município de Tacaratu. Ainda criança, ela se mudou para São Paulo quando a família fugia da seca e buscava emprego. Fez até a sétima série e voltou com seus pais para sua aldeia.Apesar de ter vivido na maior cidade brasileira, Maria conta que ela só "descortinou o mundo" quando voltou a estudar na pequena cidade de Tacaratu. "É uma cidade pequena, mas chegar lá de novo para mim foi como descortinar o mundo. Minha família sempre me protegeu muito, mas eu tive que estudar sozinha. Tive que ter coragem para continuar na escola porque muitos tinham aquela visão de que os índios são bêbados, vagabundos." Após se formar no ensino fundamental e no médio, Maria passou no vestibular do curso de história de uma pequena faculdade próxima de Tacaratu. Depois, fez outro curso de graduação, pedagogia. Dessa vez, porém, foi mais longe e passou no vestibular da Universidade Federal de Alagoas. "Sofri muito quando vim morar em Maceió. Perguntava o que eu estava fazendo aqui. Mas disse para mim mesma que tinha que parar de ser vítima da história", diz. Em sua trajetória acadêmica na universidade, Maria trombou muitas vezes com o mesmo preconceito que enfrentou em Tacaratu. "No mestrado, um professor chegou a repetir em aula, sem saber que eu era índia, os mesmos estereótipos sobre os indígenas. Eu protestei, mas ninguém quis se posicionar na briga."
Apoio
Mas em seu caminho na universidade ela também encontrou apoio, como o de suas orientadoras Januacele de Costa e Adair Palácio. A oferta de bolsas também foi fundamental. No mestrado, veio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas. No doutorado, a ajuda foi da Fundação Ford. O programa de bolsas da Fundação Ford, feito em parceria com a Fundação Carlos Chagas, é de ação afirmativa, mas não trabalha com cotas. Ele prioriza os segmentos da população menos presentes na pós-graduação: negros ou indígenas que venham de famílias que tiveram poucas oportunidades econômicas e educacionais e nascidos no Norte, no Centro-Oeste ou no Nordeste.Além de fazer todo ano anúncios das inscrições - as deste ano estão abertas até 22 de maio e mais informações podem ser obtidas no site
www.programabolsa.org.br-, há também um programa pró-ativo na busca de candidatos que se encaixem no perfil. Após serem selecionados, eles ganham uma bolsa para se manter durante o curso e para compra de recursos didáticos."Eu fiquei sabendo que haveria uma seleção de bolsas a partir de critérios de ação afirmativa pela Fundação Ford. Vi que me encaixava em todos os requisitos e tentei. A bolsa foi fundamental para que eu pudesse viajar com freqüência para a aldeia ofayé e fizesse minha pesquisa", conta Maria.O resultado das viagens de Maria e de sua pesquisa de doutorado pode significar para os ofayé o resgate de uma língua. Tentativas anteriores de ensiná-la para a geração mais jovem tiveram pouco êxito. Dessa vez, no entanto, o projeto partiu de uma índia para índios. Fez toda a diferença.

11 comentários:

luciane disse...

Oi, Angela. Que história interessante essa. Falam muito no sistema de cotas para descendentes de africanos e esquecem sempre dos índios. Que bom que ela conseguiu essa bolsa com a Fund. Ford.
Beijo

Matilda Penna disse...

Um exemplo do que eu sempre penso, estudo traz compreensão do mundo e que se pode e deve sempre estudar sem perder suas origens.
Parabéns a ela.
Bom feriado e beijos, :).

Jôka P. disse...

Ursa, obrigado por tantas palavras de carinho.
Você é a minha madrinha de blog.

Um feriado muito legal pra vocês.
Bjs,
Jôka P.
:D

Daia disse...

Oi, amiga.
Colocando a leitura em dia.
Lindo e IMPORTANTE o trabalho realizado pela pernambucana e índia pankararu!
E o que fizeram com os ianomânis foi um desrespeito imperdoável! Beijos.

Diana disse...

Olá....

Ela fez a diferença.......
Bjs....

Angela Ursa disse...

Luciane e nanbiquara, acho muito importante que os índios tenham acesso às universidades. Beijos!

Jôka, desejo uma comemoração linda e muito animada para o aniversário do seu Avenida!! Beijos da madrinha Ursa ;))

Daia, pelo menos, a gente tem uma notícia boa para compensar as notícias ruins em relação aos índios. Beijos da Ursa!

Diana, que ela seja a primeira de muitos outros índios nas universidades. Beijos da Ursa!

Elcio Domingues disse...

Querida Ursa:

Estou duplamente orgulhoso.

Com sua visita e avaliação tão positiva e com esta notícia que li aqui.

beijos e um excelente fim-de-semana.

Elcio Domingues.

Silvio Vasconcellos disse...

muito interessante. Quanta cultura que já se perdeu pela assimilação forçada de nossa cultura, mas quanto mais pode ser encontrado ainda, por esforços pessoais.

Parabéns ao blog pela divulgação desse trabalho.

Um beijo

Sílvio

Angela Ursa disse...

Amigo Elcio, seja sempre bem-vindo à floresta da Ursa. Beijos florestais! :))

Silvio, obrigada pelas suas palavras. Beijo da Ursa! :))

Jose Antonio Santos disse...

Tenho meu MESTRADO NA LINHA DA PLURICULTURALIDADE INDÍGENA. Após ler estes comentários (...), percebi que não TENHO MAIS TEMPO A PERDER (...), ATÉ MESMO COMO "SELVAGEM (...); SELVAGEM (...) SELVAGEM (...)"; Não há porque temer meu próprio escuro. Mesmo após meus 27 (vinte e sete anos como EDUCADOR E HOJE EMÉRITO, BUSCAREI MEU GRANDE FUTURO COMO ÍNDIO XUKURU - KARIRI (...).

Angela Ursa disse...

José Antonio, desejo sucesso profissional a você. Parabéns pelo seu empenho! Abraços florestais!