terça-feira, 4 de abril de 2006

Tracajá - é um quelônio aquático dulcícola (vive em água doce)

Tigela em cerâmica, feita por índias Waurá, da região do Alto Xingu, no Mato Grosso. São chamadas na língua Waurá de makulatáin

Alimentos indígenas (Fonte: Boletim Iandé )
O escritor paraense Abguar Bastos realizou uma extensa pesquisa sobre a preferência alimentar de vários grupos indígenas. Para descrever o resultado de seus estudos ele usou o termo "pantofagia", ou seja, o ato de comer de tudo.
Ele propôs uma divisão dos alimentos consumidos pelos índios em certas categorias: de resguardo, interditos, compensatórios, privativos e sagrados.
Os alimentos de resguardo são aqueles incentivados ou proibidos de serem consumidos durante um período ligado a um rito de passagem.
Os alimentos probidos, se forem absorvidos durante esse período, podem trazer consequências graves, tanto para a pessoa que os comeu quanto para seus parentes próximos. Entre os índios Bororo, do Mato Grosso, as mães que davam à luz não comiam carne de tatu nem de tartaruga, senão seus bebês podiam ficar raquíticos. Entre os Urubu-Kaapor, do Maranhão, as meninas que estão prestes a menstruar pela primeira vez tomam uma sopa de aipim - "para esquentar a vagina" - e apenas podem comer tartaruga-branca, os peixes mandi e aracu, e chibé (farinha seca diluída na água).
Os alimentos interditos são aqueles proibidos a toda a comunidade indígena, como fêmeas grávidas ou animais considerados mágicos. Os Kaingang, do sul do Brasil, e os Rikbaktsa, do norte do Mato Grosso, não comem tamanduás. Os Kaingang dizem que são gratos ao tamanduá, que ensinou alguns cantos e danças para os índios. Entre outros exemplos: os índios Xikrin (do Pará) não comem o peixe jaú, os Karajá (do Tocantins) não comem tatu, os Tapirapé (do Mato Grosso) não comem preguiça... É comum que os índios comam a carne de macacos, mas há sempre alguma espécie que não é consumida. Geralmente o motivo é - segundo as lendas - que aquela espécie já foi um humano que se transformou em tempos passados.
Alimentos recompensatórios são geralmente reservados aos homens que realizam alguma atividade muito trabalhosa. Era habitual entre os índios Bakairi, do Mato Grosso, que os homens ganhassem alimentos de todos da aldeia, antes de partirem para a caça. Entre os índios Krahò, do Tocantins, persiste um costume realizado de tempos em tempos, que fortalece a amizade entre as famílias: todos os homens saem para a mata em busca de um alimento. Quando voltam à aldeia, oferecem esse alimento a uma mulher que não seja sua própria esposa, que retribui a gentileza com uma comida preparada por ela própria. Uma espécie de troca de presentes.
Os alimentos privativos são aqueles reservados a certos indivíduos ou grupos. Entre os índios Suyá, do Mato Grosso, apenas os homens podem comer os miúdos da anta. Também só os homens, entre os Rikbaktsa, comem a cabeça de macacos e porcos-do-mato.
Por fim, o escritor Abguar Bastos chama alguns alimentos de "sagrados". Ele reúne nessa categoria os alimentos que sofrem uma influência espiritual, antes de serem consumidos. Por exemplo: os pajés dos índios Marubo, do sudoeste do Amazonas, usam o canto para curar as doenças. Há casos em que esses pajés cantam sobre um pote de mingau, que depois é oferecido ao índio doente. Isso ocorre também entre os índios Baniwa, do norte do Amazonas. Durante a festa Kariana, um rito de passagem feminino, os pajés benzem e jogam fumaça sobre a comida que será consumida pelas meninas; normalmente beiju com molho de pimenta, peixe cozido e uma cabeça de peixe. Entre os índios Wanana, do alto Rio Negro - noroeste amazônico, os pajés benzem também o leite materno que é oferecido às crianças durante a cerimônia de batismo.
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Receita de Comida dos índios Ashaninka
Tracajá cozido no casco com ovos
Limpa-se o tracajá, retirando todo o fato. Corta-se a cane e reserva-se. Afastam-se as brasas (formando um círculo) e coloca-se o casco do tracajá no meio. Adiciona-se um pouco de água à carne, que deve ser colocada dentro do casco. Quando estiver cozido, tempera-se com sal. Cortam-se umas quatro ou cinco bananas-grandes sobre a carne, mexendo sempre. Colocam-se de seis a dez ovos de tracajá dentro do cozido; em seguida retira-se o casco do fogo - está pronto.

6 comentários:

Janaina Staciarini disse...

Oi, Angela!! Eu ameeeeiii essa divisão dos alimentos. Aliás, eu gosto muito de tudo que eu leio aqui. Beijos!

Diana disse...

Bom dia.....

Puxa..legal isso....
Aqui na familia..tb tinha algo de na dieta ter uma alimentação diferenciada....a ''canja''......e tinha que ser com frango criado preso....algo assim....
Rsss....
Bjs..

Ana Maria disse...

Angela, tem certos bichos que não como de jeito maneira. Esse tracajá seria um deles. Me falam maravilhas da carne de rã, mas não dá, não desce. Tartaruga pra mim é sempre alimento proibido ou interdito.

Matilda Penna disse...

Adorei a makulatáin, linda, em cima de uma mesa como fruteira fica perfeita.
E tracajá é gostoso sim, já provei.
E os alimentos sagrados estão presentes em todas as culturas, rezar ou benzer antes de se alimentar faz parte do homem, eu acho.
Beijos, :).

Angela Ursa disse...

Janaína, obrigada! Beijos floridos da Ursa :))

Diana, esse tipo de sabedoria, geralmente, é antiga. Beijos!

Ana, eu já provei carne de rã. É branquinha, parece peito de frango. A carne de rã faz muito bem à saúde, principalmente, para pessoas debilitadas. Beijos!

Nanbiquara, é verdade, na nossa cultura, muitas pessoas costumam rezar antes das refeições. Beijos da Ursa :))

Lia Noronha disse...

Ursa: que lindinhos os enfeites de cerãmicas...pura Arte! vc deve ter muitos desses na sua encantada floresta,nao é mesmo?
Bom fim de semana minha querida.
Beijos bem carinhosos.