quarta-feira, 30 de julho de 2008

Na frente, Manuel Guedes, pai dos índios Marcenio Guedes (de branco) e Natalício (ao fundo, de azul), que assumiram ser gays (Kátia Brasil /Folha Imagem)

Índios gays são alvo de preconceito no AM

(Kátia Brasil da Agência Folha, em Tabatinga (AM)

Entre os índios ticuna, a etnia mais populosa da Amazônia brasileira, um grupo de jovens não quer mais pintar o pescoço com jenipapo para ter a voz grossa, como a tradição manda fazer na adolescência, nem aceita as regras do casamento tradicional, em que os casais são definidos na infância.Esse pequeno grupo assumiu a homossexualidade e diz sofrer preconceito dentro da aldeia, onde os gays são agredidos e chamados de nomes pejorativos como "meia coisa". Quando andam sozinhos, podem ser alvos de pedras, latas e chacotas.
Três ticunas da aldeia Umariaçu 2, na região do Alto Solimões, em Tabatinga (1.105 km de Manaus), contaram para a *Folha* como é a vida dos homossexuais indígenas na fronteira com a Colômbia e o Peru.A população ticuna no Alto Solimões soma 32 mil índios. Na aldeia Umariaçu 2, que fica no perímetro urbano de Tabatinga, vivem 3.649 índios ticunas, 40% com menos de 25 anos. Entre esses jovens, pelo menos 20 são conhecidos como homossexuais assumidos. Segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio), há registros de gays também nas aldeias de Umariaçu 1, Belém do Solimões, Feijoal e Filadélfia."Isso é novo para a gente. Não víamos indígenas assim, agora rapidinho cresceu em todas as comunidades. São meninos de 10, 15 anos", disse Darcy Bibiano Murati, 40, que é indígena da etnia ticuna e administrador substituto da Funai.Marcenio Ramos Guedes, 24, e seu irmão, Natalício, 22, pintam o cabelo e as unhas e fazem as sobrancelhas. Trabalham como dançarinos em um grupo típico ticuna que se apresenta nas cidades da região.Marcenio diz que brigava muito com o pai e que saiu de casa aos 15 anos. "Fui para Tabatinga trabalhar como "empregada doméstica". Eu fazia comida, passava roupa, lavava."Ao voltar para casa, uma construção de madeira com dois cômodos, onde mora com quatro dos sete irmãos e os pais, Marcenio resolveu cuidar dos afazeres domésticos. O grupo de dança foi criado em 2007, com apoio da família."Não sofro discriminação por dançar, todo mundo respeita, assiste. Sofro preconceito [de outros jovens] na aldeia. Se falo alguma coisa, querem me bater, jogar pedra, garrafa."Natalício diz que tem medo de andar sozinho. "Vou sempre com um colega", afirma.O ticuna Clarício Manoel Batista, 32, é professor do ensino fundamental e estuda pedagogia na UEA (Universidade Estadual do Amazonas), em Tabatinga. Ele foi um dos primeiros a assumir a homossexualidade na aldeia Umariaçu 2. "Alguns me discriminam --indígenas daqui, não-indígenas também. Fico calado, não falo nada. Eu não ligo para eles", diz.Clarício disse que contou aos pais que era gay aos 16 anos. "Meu pai não me maltratava porque sempre gostei de estudar, sempre fiz tudo em casa: limpeza, comida, lavar louça."Questionado se foi pelo trabalho doméstico que ganhou respeito em casa, ele confirmou. "Na verdade, eles [os pais] não queriam que eu fosse assim [gay]. Eles não gostam. Dizem: ninguém gosta desse jeito." O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) escreveu que há registros de homossexualidade entre índios desde ao menos o século 19. Em Mato Grosso, ele estudou os cadiuéus, que chamavam o homossexual de kudina --que decidiu ser mulher. O cientista social e professor bilíngüe (português e ticuna) de história Raimundo Leopardo Ferreira afirma que, entre os ticunas, não havia registros anteriores da existência de homossexuais, como se vê hoje.Ele teme que, devido ao preconceito, aumentem os problemas sociais entre os jovens, como o uso de álcool e cocaína."Isso [a homossexualidade] é uma coisa que meus avós falavam que não existia", afirmou.

7 comentários:

Jôka P. disse...

Dona Ursa,
pelo que li no seu post esses jovens índios não são gays e sim travestís, o que é totalmente diferente.
Não que as travecas mereçam qualquer tipo de hostilidade, mas essa matéria reforça um engano muito comum, que é de confundir gays e travecos.
O estranhamento e a rejeição existem em todas as comunidades, até entre animais, que muitas vezes atacam os "diferentes".
Nós, os seres "racionais" devemos nos educar pra aceitar as diferenças, embora isso nem sempre seja fácil. E isso não se da somente quando se fala de sexualidade.
Seres humanos de todas as raças e cores (não me venham com o papo brabo de que raças não existem), brancos, árabes, orientais, negros ou índios são extremamente preconceituosos, e como se vê no caso dos índios, até mesmo dentro de suas próprias tribos existe muita ignorancia.
Li um post sobre esse mesmo assunto no ótimo blog do Tony Goes, acho a colocação dele muito inteligente e bacana:

http://tonygoes.blogspot.com/2008/07/ndio-quer-apito.html

O símbolo gay é o arco-íris porque representa a grande diversidade de "sexualidades" convivendo em harmonia e aceitação.
Quando entendermos e colocarmos isso em prática, todas as tribos poderão viver em paz, com mais respeito mútuo.

Um beijo querida amiga Ursa Sentada !

Jôka P. disse...

PS: daqui não estou consiguindo ver a foto do post...

Kaplan disse...

tambem eu não consigo ver a foto. um saudozinho à senhora dona ursa.

Angela Ursa disse...

Jôka, muito obrigada pelo seu esclarecimento, informações e opinião. Concordo com você, o preconceito existe em relação a todos os tipos de diferenças. Se todos aceitassem a riqueza da diversidade, tudo seria melhor.
Beijos e carinho da Angela Ursa

Angela Ursa disse...

Esqueci de falar sobre a foto do post. Eu coloquei o link direto da Folha Imagem, talvez por isso vocês não estão conseguindo ver. Depois, vou tentar hospedar em outro lugar.
Por enquanto, aqui vai o link da matéria onde tem fotos:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u426640.shtml
Kaplan, abraços floridos da Ursa :))

Jôka P. disse...

Agora estou vendo a imagem perfeitamente, queridona !
Bjs!

janaina de almeida disse...

Até entre os indígenas há preconceito.Ursa, foi até bom ter postado sobre isso porque me lembrei de um programa que vi na TVBrasil(antiga TVE)sobre índios e que num dos episódios fizeram um ritual para quem um menino "deixasse" de ser homossexual.Fiquei com pena, porque vi que o menino estava extremamente nervoso.
Beijos floridos.