sexta-feira, 6 de outubro de 2006

(Fonte da imagem e das informações: site ambientebrasil)

O xamanismo Yanomami

O xamanismo é, juntamente com o complexo ritual ligado ao tratamento da morte e dos mortos, um dos pilares da cultura Yanomami. As sessões xamânicas, individuais ou coletivas constituem tanto uma atividade regular como espetacular no seio das casas coletivas Yanomami. Cada aldeia conta, portanto, com ao menos um ou dois xamãs - às vezes com mais de uma dezena, como é o caso da comunidade de Watoriki.
Os xamãs fazem, segundo os nossos termos, “descer” e “dançar as imagens” (utupë) dos seres da origem mitológica do mundo e, sobretudo, aqueles ancestrais humanos/animais da primeira criação (yaroripë). Incorporamos essas “imagens”, uma depois da outra, sob a forma de espíritos auxiliares (xapiripë) realizando os trabalhos sobrenaturais para os quais os atributos ou competências destas entidades foram mobilizados. Os espíritos aparecem aos xamãs como minúsculos humanóides, comparados à partículas de poeira brilhante.
Sempre deslumbrantemente enfeitados com ornamentos de coloridas e luminosas plumagens, eles dançam lentamente sobre vastos espelhos, sem jamais tocar o chão. Durante essas sessões o xamã reproduz os cantos e a coreografia própria de cada espírito, aos quais, um após o outro, vai se identificando. Em conseqüência desse processo de identificação às imagens/espíritos dos primeiros tempos, os xamãs Yanomami são denominados xapiri thëpë, “pessoas-espíritos”.
A principal atividade dos xamãs é a de curar os membros de comunidade e de protegê-los dos poderes de predação que ameaçam sua integridade oriundos, tanto de formas de alteridade humana (aliados malévolos e inimigos), quanto não-humana (espíritos da floresta, espíritos xamânicos inimigos).
São, também, encarregados de manter sob controle a alternância dos dias e das estações do ano, além cuidar da abundância de caça e da fertilidade das plantações e floresta. Finalmente devem, quando morre um dos nossos, evitar que os espíritos órfãos cortem a abóbada celeste, o que provocaria sua queda; cataclismo similar ao que originou o mundo atual e do qual teme-se que marque o fim.
Costuma-se dizer que todo futuro xamã é, desde a infância, habitado por estranhos sonhos induzidos pelos espíritos que fixam seu olhar sobre ele. Mais tarde, conduzido pelos anciãos, deverá aprender a ver esses espíritos. A iniciação xamânica é ao mesmo tempo dolorosa e extática. Assim, durante várias semanas, o xamã inala o pó yãkoana, potente alucinógeno. Seu corpo é, então, simbolicamente desmembrado, invertido e recomposto pelos espíritos. Este é o preço pago para poder vê-los, aprender seus cantos e colocá-los a seu serviço.
O xamanismo Yanomami, através da convocação das imagens das origens, e de sua combinação sempre renovada no decorrer de cada sessão, constitui um dispositivo de interpretação da realidade do mundo e de intervenção sobre seus mecanismos subjacentes. Pressupõe, também, a capacidade dos xamãs de transcender as barreiras entre as categorias dos seres que povoam o Universo, dando-lhes, sucessivamente, corpo. Essa incorporação das imagens originais confere-lhes o poder de assumir, potencialmente, a subjetividade de todos os seres existentes, humanos e não-humanos, constituindo-os no ponto de totalização ontológica do conhecimento total do Cosmos.

5 comentários:

desassistidas disse...

OLá Angela Ursa, que blog lindoooooooooooooooo...cai aqui por acaso, essa borboleta esta arara encantam e a músicaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Meus parabéns...
abraços,
THA

Saramar disse...

Angela Ursa, que coisa maravilhosa!
Sempre aprendo aqui na Floresta.
Esse texto me fez pensar na origem única dos seres humanos.
Os rituais, as crenças, a busca da essência humana na natureza e vivce-versa, em seus fenômenos é a mesma em todas as civilizações.
É emocionante perceber e conviver com essa semelhança, principalmente neste época de individualismo e preconceitos.
Obrigada, querida.

beijos e bom final de semana.

Angela Ursa disse...

THA, seja sempre bem-vinda! Obrigada pela visita e o comentário. Abraços florestais da Ursa :))

Saramar, a cultura indígena tem coisas muito bonitas mesmo. Beijos da Ursa :))

Kristal disse...

Um beijo xamânico para você, Angela !

Angela Ursa disse...

Kristal, saudações xamânicas para você também. Beijos! :))